CIET:EnPED:2018

TRABALHO APROVADO:

EDUCAÇÃO NA MODERNIDADE: O USO DE NOVAS TECNOLOGIAS NO ÂMBITO DA EDUCAÇÃO PERMANENTE

AUTORES: Vanderlei De Freitas Nascimento Junior; Vinício Carrilho Martinez

 

TRABALHO APROVADO:

PROPAGANDA SOCIAL EM REDE COMO FERRAMENTA DE EDUCAÇÃO HUMANITÁRIA NA INFÂNCIA

AUTORES: Caroline Janjácomo; Vinício Carrilho Martinez

A realidade virtual não é para todos

Limitar o uso do celular dos filhos resolve? Segundo a cientista coreana Yuhyun Park não é suficiente .  A pesquisadora defende a necessidade de uma educação digital desde cedo, visando a construção de cidadãos também no ambiente virtual. Segundo ela, mais do que serem obrigados a não estar online durante certo período, as crianças precisam compreender os perigos deste universo particular, tanto quanto são treinadas a entender os riscos que correm na vida cotidiana.
Esse tipo de educação, segundo Park, visa tanto promover um comportamento consciente, fazendo com que as crianças não sejam propensas a participar de práticas de bullying digital, por exemplo, como também objetiva formar nelas uma consciência crítica, de forma que elas não estejam expostas a situações nocivas deste meio, como vícios em jogos, conteúdo violento, ou pornografia infantil. Afinal, como não é possível estar online com as crianças todo o tempo, acompanhando seus passos ou cliques, afirma a cientista, elas precisam ser treinadas a agir de forma segura e independente.
Pensar a tecnologia não só em relação às funcionalidades, mas também na sua influência sobre a nossa vida, mostra-se cada dia mais essencial, uma vez que a prática da tecnologia interativa (como desnaturalização da vida social) está progressivamente mais presente em nosso contexto.
As mudanças neste setor foram tão rápidas que os pais parecem não estar preparados para prevenir seus filhos. Por este motivo, a pesquisadora defende que este tipo de educação esteja presente nos currículos escolares. Cingapura, onde vive Yuhyun, já adotou a iniciativa. Também o diálogo em casa é defendido por ela. As crianças precisam ser alertadas dos perigos online, como são dos off-line. As redes sociais na faixa etária de 8 a 12 anos também são condenadas pela pesquisadora, que não vê benefício algum da prática nessa idade.
Escândalos denunciando a violação de 60 milhões de usuários do Facebook, além da incapacidade dos próprios técnicos e especialistas em informática, e juristas, em evitar a presença de Fake News  – quando não são as próprias vítimas –, reforçam a necessidade premente de fazermos um debate mais sério e organizado acerca das tecnologias interativas deste milênio.
O mundo em rede trouxe soluções e problemas, e nem todos estão preparados para sua realidade. Se cientistas e técnicos são surpreendidos, o que dirá o homem médio em sua vida comum?
Sem contar que efeitos como hackers, Dark Web, Inteligência Artificial, o fenômeno antissocial do Uber-humano, a recorrência aos emoticons em substituição à linguagem escrita, elevam e agravam o descompromisso com o formal – mal compreendido como tradição – e com o direito (no sentido de bom senso), e só fazem aumentar o desconhecimento envolto na relação real/virtual.
De outro modo, pode-se indagar, se não temos educação em direitos, se somos devedores de uma “inteligência política” (como organização social complexa), ou seja, se não resolvemos muitos dos maiores problemas do “passado” (renitente), que tipo de cuidados demonstramos em direção ao futuro-presente?
É provável que não tenha havido época mais emocionante do que esta em que vivemos, com os sobressaltos de cada “nova tecnologia”, mas é preciso saber reconhecer que as dificuldades são de igual monta. Para adultos e crianças. Indistintamente. Por isso, a realidade virtual não é para curiosos, assim como a política também não.

Vinício Carrilho Martinez . Professor da UFSCar/ Ded.
Caroline Janjácomo. Mestranda no PPGCTS/ UFSCAR.
Vivian Guilherme. Mestranda no PPGCTS/ UFSCAR.

Elites sem tropas

O cineasta brasileiro José Padilha (de “Tropa de Elite”) agora desvela segredos e enredos da história do narcotraficante colombiano Pablo Escobar. A série Narcos é uma produção da Netflix, e tem dez episódios. Como foi com Tropa de Elite, deve ser um sucesso de audiência. E aí começa o problema (ideológico).

No lançamento da série, entrevistado, revelou (carisma) que não acredita em ideologias: nem socialismo, nem Escola de Chicago. As teorias sociais não explicam muita coisa. Apontou ainda que acredita na investigação isolada de determinados fatos históricos (por isso, a própria história deixaria de ser uma metanarrativa).

Isto nos interessa ao menos por um bom motivo: o tráfico de drogas é um poder aberto (nu), sem controle e muitas vezes recebe revestimentos do mesmo sistema que supostamente o combate. Nessa linha de argumentação ideológica, muitos defensores da descriminaização do uso de drogas dizem, inclusive, que se elevariam as receitas utilizadas no tratamento de saúde aos dependentes químicos.

Com o que também se vê que o sistema jamais combaterá o capital gerado e financiador do tráfico. A luta nunca foi contra o capital “espúreo” (porque não há capital limpo de sangue), mas tão-somente contra os sonegadores, por não repartirem seus lucros com o sistema. No fundo, todo diamante é vermelho, sujo de sangue, e não porque um lote financiou a guerra/guerrilha na Serra Leoa.

Na América Latina, realmente “o realismo mágico é documental” e Gabriel Garcia Márquez foi o gênio que percebeu com mais clareza o absurdo como protagonista do realismo político: no melhor estilo de uma vaca comendo o tapete do ditador. Agora, enterrar as metanarrativas em um inventário supra-ideológico, como se fossem inexistentes, não é apenas pós-moderno, é retrógrado. Ou seja, não é protagosnismo de “cinema de autor”, é pré-moderno.

Ao dizer que não se tem ideologia (revelando-se a própria ação ideológica), dá para entender porque Tropa de Elite teve um efeito ideológico reverso (e perverso) às pretensões do autor: o Capitão Nascismento acabou eternizado e eternizou a exceção. O formato BOPE é exceção. Mas, como se acredita no fim da ideologia, tornou-se a própria regra, a máxima dos que acreditam no fim da mentira do sistema.

Ironicamente, revelou-se ainda o absurdo do senso comum: combater ideologia com outra ideologia – Tropas Especiais especializadas em contra-ideologia (faz algum tempo que abandonamos a contra-inteligência). Porém, como a ideologia não tem fim e o sistema não acaba, a série Tropa de Elite esgotou seu repertório.

Desse modo, aprendemos que o realismo é controverso, perverso (muito pior do que as ideologias), vingativo e cobra tributos muito caros – especialmente para quem acredita ser possível acabar com a(s) ideologia(s) com passe de mágica. Esse talvez seja o melhor conteúdo do realismo mágico revelado por um romance como A aventura de Miguel Littín clandestino no Chile, do escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez[1].

O trágico, no entanto, é que o realismo mágico não faz trocadilhos, apenas apresenta cruamente o realismo dos fatos – sendo que o mais ilusório deles é crer no fim ou na superação da ideologia e que não seja por meio da Ciência Social, isto é, uma metanarrativa. Assim, percebemos que, quando há ausência de conhecimento científico, teórico (ou metanarrativa), as ideologias fervilham como essa aposta na crença pós-moderna de que o local explica o global.

Se houvesse Ciência Social saberia que esse pensamento é herdeiro do puro positivismo de Auguste Comte, seguindo-se o caminho funcionalista de Emile Durkheim (e os sistemas de Talcot Parsons). Não há nada de revelador e nem de anarquismo combatente. É pura ideologia de quem não se sabe positivista/sistêmico.

O que ainda desvela (no combate à ideologia sistêmica) parte do momento atual em que as elites sem tropas inteligentes fazem uso reiterado de tropas de assalto. Por fim, este é o sistema que não se combate, perdulário da Realpolitik e que se revigora nas forças de exceção.

Além da pequena análise – do fato pequeno, isolado em si mesmo – esconder o “julgamento de realidade”, nao vislumbra os conteúdos de classe, de relação social, do poder que se hegemoniza na “lavagem do capital”.

Não embarquemos nesse sonho irrealizável e tão bem contado para as crianças do tráfico: imortalizadas no fogueteiro entregue aos lobos do capital. Definitivamente, não é possível combater o crime com outro crime ainda pior: o de esconder a realidade na fantasia do fim da ideologia.

Ainda que possamos entender ideologia como “conjunto de ideiais ou de ideais” (Karl Mannheim) ou visão de mundo, quero uma pra viver. Não suportaria a ideia de pensar que tenho a cabeça vazia de sentidos.

Vinício Carrilho Martinez

Professor da Universidade Federal de São Carlos