Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2018/03/app-informou-facebook-de-que-poderia-vender-dados.shtml
Facebook vai confirmar endereço de quem faz propaganda política na rede
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O que são direitos humanos e por que há quem acredite que seu propósito é a defesa de ‘bandidos’?
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Disponível em: http://m.gizmodo.uol.com.br/tim-cook-apple-critica-facebook/
Elites sem tropas
O cineasta brasileiro José Padilha (de “Tropa de Elite”) agora desvela segredos e enredos da história do narcotraficante colombiano Pablo Escobar. A série Narcos é uma produção da Netflix, e tem dez episódios. Como foi com Tropa de Elite, deve ser um sucesso de audiência. E aí começa o problema (ideológico).
No lançamento da série, entrevistado, revelou (carisma) que não acredita em ideologias: nem socialismo, nem Escola de Chicago. As teorias sociais não explicam muita coisa. Apontou ainda que acredita na investigação isolada de determinados fatos históricos (por isso, a própria história deixaria de ser uma metanarrativa).
Isto nos interessa ao menos por um bom motivo: o tráfico de drogas é um poder aberto (nu), sem controle e muitas vezes recebe revestimentos do mesmo sistema que supostamente o combate. Nessa linha de argumentação ideológica, muitos defensores da descriminaização do uso de drogas dizem, inclusive, que se elevariam as receitas utilizadas no tratamento de saúde aos dependentes químicos.
Com o que também se vê que o sistema jamais combaterá o capital gerado e financiador do tráfico. A luta nunca foi contra o capital “espúreo” (porque não há capital limpo de sangue), mas tão-somente contra os sonegadores, por não repartirem seus lucros com o sistema. No fundo, todo diamante é vermelho, sujo de sangue, e não porque um lote financiou a guerra/guerrilha na Serra Leoa.
Na América Latina, realmente “o realismo mágico é documental” e Gabriel Garcia Márquez foi o gênio que percebeu com mais clareza o absurdo como protagonista do realismo político: no melhor estilo de uma vaca comendo o tapete do ditador. Agora, enterrar as metanarrativas em um inventário supra-ideológico, como se fossem inexistentes, não é apenas pós-moderno, é retrógrado. Ou seja, não é protagosnismo de “cinema de autor”, é pré-moderno.
Ao dizer que não se tem ideologia (revelando-se a própria ação ideológica), dá para entender porque Tropa de Elite teve um efeito ideológico reverso (e perverso) às pretensões do autor: o Capitão Nascismento acabou eternizado e eternizou a exceção. O formato BOPE é exceção. Mas, como se acredita no fim da ideologia, tornou-se a própria regra, a máxima dos que acreditam no fim da mentira do sistema.
Ironicamente, revelou-se ainda o absurdo do senso comum: combater ideologia com outra ideologia – Tropas Especiais especializadas em contra-ideologia (faz algum tempo que abandonamos a contra-inteligência). Porém, como a ideologia não tem fim e o sistema não acaba, a série Tropa de Elite esgotou seu repertório.
Desse modo, aprendemos que o realismo é controverso, perverso (muito pior do que as ideologias), vingativo e cobra tributos muito caros – especialmente para quem acredita ser possível acabar com a(s) ideologia(s) com passe de mágica. Esse talvez seja o melhor conteúdo do realismo mágico revelado por um romance como A aventura de Miguel Littín clandestino no Chile, do escritor colombiano Gabriel Garcia Márquez[1].
O trágico, no entanto, é que o realismo mágico não faz trocadilhos, apenas apresenta cruamente o realismo dos fatos – sendo que o mais ilusório deles é crer no fim ou na superação da ideologia e que não seja por meio da Ciência Social, isto é, uma metanarrativa. Assim, percebemos que, quando há ausência de conhecimento científico, teórico (ou metanarrativa), as ideologias fervilham como essa aposta na crença pós-moderna de que o local explica o global.
Se houvesse Ciência Social saberia que esse pensamento é herdeiro do puro positivismo de Auguste Comte, seguindo-se o caminho funcionalista de Emile Durkheim (e os sistemas de Talcot Parsons). Não há nada de revelador e nem de anarquismo combatente. É pura ideologia de quem não se sabe positivista/sistêmico.
O que ainda desvela (no combate à ideologia sistêmica) parte do momento atual em que as elites sem tropas inteligentes fazem uso reiterado de tropas de assalto. Por fim, este é o sistema que não se combate, perdulário da Realpolitik e que se revigora nas forças de exceção.
Além da pequena análise – do fato pequeno, isolado em si mesmo – esconder o “julgamento de realidade”, nao vislumbra os conteúdos de classe, de relação social, do poder que se hegemoniza na “lavagem do capital”.
Não embarquemos nesse sonho irrealizável e tão bem contado para as crianças do tráfico: imortalizadas no fogueteiro entregue aos lobos do capital. Definitivamente, não é possível combater o crime com outro crime ainda pior: o de esconder a realidade na fantasia do fim da ideologia.
Ainda que possamos entender ideologia como “conjunto de ideiais ou de ideais” (Karl Mannheim) ou visão de mundo, quero uma pra viver. Não suportaria a ideia de pensar que tenho a cabeça vazia de sentidos.
Vinício Carrilho Martinez
Professor da Universidade Federal de São Carlos
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País do nunca: Nunca será!
Antes que houvesse ativismo em defesa dos direitos humanos, indivíduos e coletivos já lutavam pelo direito. Espartacus, líder de rebeliões escravas na Roma antiga, conhecia muito bem a Luta Pelo Direito. Também o senador Cícero de algum modo fazia sua parte.
Alguns pensam os direitos humanos antes dos grandes períodos revolucionários do século XVIII, na Europa e nos EUA, como na Lei das 12 Tábuas ou na Carta Magna da Inglaterra de 1215.
Por outro lado, é justo pensar que sem uma forte densidade na ideia do que é Humanidade, ou seja, sem que os povos falassem e lutassem pela Humanidade (como se viu no combate ao nazismo), não é fácil encontrar direitos humanos. Mais apropriado para evitar digressões e confusões é tomar o marco da Declaração Universal dos Direitos Humanos, de 1948.
Marielle era símbolo do que se iniciou em meados do século XX. Com a morte dela se assassina a luta pelo direito. E sem direito o homem é um animal psicopata. No Brasil não é só um lobo, é vampirismo social.
Quem não reconhece o direito pratica a violência. Neste quesito, somos os únicos da natureza. Assim eram O Conde Vlad e o soldado Rambo. A lógica é simples e começa com a receita do “homem lobo do homem”. Por isso, devemos rever o Renascimento de Thomas Hobbes.
Todavia, duas semanas após o assassinato premeditado de Marielle ainda se questiona sua integridade. Se é verdade que nenhuma vida vale mais do que outra, é igualmente necessário realçar que Marielle simbolizava a defesa de todas as outras vidas, inclusive ao socorrer a família dos policiais vitimados.
Para defender uma, não se pode desqualificar a outra. O luto pela bestial eliminação de Marielle ocorre porque, como ela, milhares de defensores de direitos humanos foram e são trucidados neste País do Nunca.
No País do Nunca, historicamente, a luta pelo direito sempre esbarrou no direito à propriedade. Se o Estado de Direito é capenga na República do século XXI, no capitalismo escravista atendia unicamente à ordem do Capitão do Mato – enquanto sinalizava o progresso inabalável do Senhor de Engenho. Marielle era senzala, e também por isso teve o rosto desfigurado e o caixão lacrado.
Mas não foi só aqui, pois o mesmo se viu na guerra civil nos EUA e no Apartheid da África do Sul. O que há em comum em relação a todos, incluindo Martin Luther King e Gandhi, é a luta ferrenha para que a vida humana valesse mais do que o dinheiro extraído em sangue humano.
Desse ponto de vista, denegrir ou minimizar as consequências e os valores incutidos na vida e na morte de Marielle equivale a bonificar a autofagia. É a tragédia repetida na Vida e Morte Severina.
Não é à toa que a imensa maioria dos defensores dos direitos humanos no país foi morta em rituais de sadismo. É o recado de pavor. “Você vai morrer, mas só depois de ser retalhado.” – Assim ordenaram tanto Beira-Mar (punindo a ex-namorada) quanto o Estado Paralelo que gerencia o país. Esse é o País do Nunca: “Nunca serão!”.
E é óbvio que ocorrem muito mais crimes bestiais em áreas pobres, negras ou em áreas de fronteiras verdes. A exceção de quem defende a luta pelo direito nas bolsas de valores é tão ínfima que o seu antagonismo é infinito.
É mais fácil trombarmos com o cadáver de Zumbi do que encontrar o julgamento de um John Brown. Por isso quem luta pelo direito denuncia a miséria humana e os horrores do capital devastador.
Não é todo dia que veremos um Goethe atacar as diabólicas orquestrações do capitalismo. Porém, podemos ver uma Marielle por aí. Ou víamos, antes que fosse desfigurada pela munição oficial do Estado. De toda forma, o poder público participou do assassinato da vereadora negra, pobre, homossexual, socióloga e ativista dos direitos humanos.
Também não é por acaso que o País do Nunca desconhece as Letras, porque no reino do analfabetismo, disfuncional e político, é simples negar que já existiu Iluminismo. Afinal, sem as Luzes, é expansivo o obscurantismo. A morte secretada, tramada na escuridão dos valores humanos, por certo congrega o pior breu da condição humana.
Na contabilidade das perdas de vidas humanas, lançada no Livro Razão (o único que se lê com avidez), nesse quadro de obscuro fascismo, Marielle é uma a mais. Só que não é. Porque outros milhões pelo mundo afora levaram as alças do seu caixão. E milhões levarão sua Luta pelo Direito.
Sua morte implica no atentado direto à vida de todos nós. Marielle foi eliminada atrás de um vidro fumê porque acusou o capital exterminador que sempre associou o Poder Político ao crime organizado.
Marielle foi morta pelo obscurantismo e, exatamente por isso, gerou indignação no mundo civilizado e dentre pessoas “esclarecidas”: adeptas dos ganhos iluministas do direito.
Também é óbvio que se trata de mais uma mulher morta por homens. Não há a menor dúvida do que isso significa. Mas, além disso, milhões foram aos seus incontáveis funerais públicos para denunciar o atual estágio do fascismo entre nós.
Infelizmente não será o último caso, sua morte não cessará a ocorrência de outras, na Luta pelo Direito contra o capital e o barbarismo societal. Agora mesmo é muito provável que estejam sendo executados negros, pobres, crianças do tráfico, trabalhadores rurais, seringueiros, indígenas, quilombolas, mulheres abusadas, policiais que disparam e encontram balas perdidas.
Enfim, com tudo isso, quem se julgar “iluminado” pela luta por direitos tem que se manter firme. Oxalá, um dia no País do Nunca, Ogum encontre a Iustitia.
Vinício Martinez
Pós-Doutor em Ciência Política. Professor Associado da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar/CECH.
A Importância do Ato de Ler
Navegar é preciso
Fernando Pessoa
Neste breve século XXI, enquanto se discute inclusão e alfabetização digital, crescem visões a-históricas maquiadas de pós-verdade e proliferam as mentiras em forma de Fake News. O Brasil é um dos piores em ranqueamento mundial em alfabetização: mais de 92% da população entre 15 e 64 anos não é proficiente em escrita, leitura e nas habilidades matemáticas. Isso mostra que não temos uma educação pública, laica, de qualidade, democrática, crítica e emancipadora. Um tipo de escolarização pública que tenha como suporte uma escola que ensine a ler e escrever, a somar e a dividir, que proporcione o contato dos jovens com os algoritmos, e que não seja apenas pela mediação de jogos, brincadeiras ou redes sociais. Neste caso, a tarefa inicial seria (re)pensar uma educação que proporcionasse o acesso ao conhecimento científico (técnico), político, filosófico, artístico, histórico, acumulado pelo esforço da Humanidade. O filósofo renascentista Francis Bacon já dizia que “saber é poder” e também que o conhecimento conduz ao Banquete dos Deuses, ao Olimpo do poder público. Quer dizer, sem letras só há exclusão; pois, sem a presença na Ágora (isonomia política), é negado o direito à opinião qualificada (isegoria).
Mas, o que temos é a difusão do senso comum criador do homo Faber que não será homo sapiens e, portanto, longe da vida pública não será zoonpolitikón. Sem o domínio dos códigos formais da escrita, sem o entendimento do sujeito na frase, (in)justamente os mais desassistidos vão violando a língua escrita com emotions. Mantendo-se no aprisionamento da gíria do coloquialismo são incapazes da compreensão do Livro Razão: a contabilidade do sistema produtivo. Sem o acesso à linguagem formal (bastando-se na linguagem dos sinais e que já foram hieróglifos), reduzem-se a um tipo de “consciência de WhatsApp”. São incapazes de compreender as artimanhas do Poder Político, a formalidade da economia, as regras do direito que lhe manda cegamente obedecer. Portanto, distante do pensamento formal do mundo da rua, são reféns do mundo da casa. Isso é elitismo? Não. Por que os filhos da classe trabalhadora devem ser alijados da ciência?
As elites culturais, falantes de duas ou três línguas, não querem seus filhos em meio à universalidade do saber-poder? Por que as teses de multiculturalismo não incluem a luta de classes na longa série de lutas miúdas de direitos de grupos minoritários? Se defendemos minorias, por que não as juntamos em uma maioria? Não é justo pactuar com a ideia falsa de que a escola não precisa ensinar. Aliás, é ridículo discutir o óbvio. É ululante que a escola deve cumprir sua função social: alfabetizar, ensinar a decodificar os códigos formais. É preciso saber que a história começou com a escrita. Assim, ainda é preciso saber que o caminho da participação social, em tempos (pós)modernos, tem início em reconhecer a função do algoritmo nas redes sociais. É o primeiro passo para entender que a Inteligência Artificial não é magia e nem diabrura. A não ser as diabolices da atual Sociedade de Controle.
Como se dá essa transformação? No domínio da língua materna, no reconhecimento da importância da regra de três, e que equivalem em importância, enquanto ato de ler, ao conhecimento da Constituição: até às fímbrias técnicas do significado de um acórdão do Supremo Tribunal Federal (STF). Porque, sem dominar os acordes do poder não há linguagem de sinais e gírias que nos salve. Inclusive, o ensino com a qualidade da ciência moderna levaria ao conhecimento ontológico de que não há sociedade humana sem dominação e sem direito. Basta ler Antropologia e Filosofia Política. É preciso saber que a própria ideia de democracia cultural, multicultural, deve ser eficaz em explicar o que é o Princípio da Perfectibilidade. Afinal, não é da Política grega que tratamos; mas, da Polis do século XXI. Os herdeiros da classe trabalhadora não nasceram de um torno e nem são órfãos da língua portuguesa.
Por que os filhos e as filhas da classe trabalhadora não podem, literalmente, ler e interpretar os manuais do poder? A educação pública tem que considerar essencial a “ratio” de quem defende o direito à educação, se se quer transformar o senso comum do status quo em consciência política. E, como educadores, temos sim de interferir num quadro societal dominado pelo senso comum adornado de cultura ordinária, cotidiana. Pode-se criticar o Iluminismo, mas antes é preciso “ler” suas estruturas e epistemologias. O educador deve intervir para que o discurso de neutralidade (que não existe na prática) não seja um véu, um engodo, a esconder a realidade. O educador deve convidar os filhos da classe trabalhadora a exercitarem a veritá efetualle, de que tratou Maquiavel. Porém, para isso, é preciso saber a importância do ato de ler. É preciso saber o quanto é preciso o ato de ler, assim como o ato de navegar, escrevendo palavras inteiras e não meias palavras. Por fim, dominando o “ato de ler” (tanto o formal, quanto o senso comum), o filho da classe trabalhadora será o primeiro a espantar a hipocrisia que teima em aprisioná-lo ao analfabetismo, à ignorância.
Vinício Carrilho Martinez (Pós-Doutor em Ciência Política)
Professor Associado da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar/Ded
Maria Cristina dos Santos Bezerra (Pós-Doutora em Educação)
Professora Associada da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar/Ded




