Navegar é preciso

Fernando Pessoa

 

Neste breve século XXI, enquanto se discute inclusão e alfabetização digital, crescem visões a-históricas maquiadas de pós-verdade e proliferam as mentiras em forma de Fake News. O Brasil é um dos piores em ranqueamento mundial em alfabetização: mais de 92% da população entre 15 e 64 anos não é proficiente em escrita, leitura e nas habilidades matemáticas. Isso mostra que não temos uma educação pública, laica, de qualidade, democrática, crítica e emancipadora. Um tipo de escolarização pública que tenha como suporte uma escola que ensine a ler e escrever, a somar e a dividir, que proporcione o contato dos jovens com os algoritmos, e que não seja apenas pela mediação de jogos, brincadeiras ou redes sociais. Neste caso, a tarefa inicial seria (re)pensar uma educação que proporcionasse o acesso ao conhecimento científico (técnico), político, filosófico, artístico, histórico, acumulado pelo esforço da Humanidade. O filósofo renascentista Francis Bacon já dizia que “saber é poder” e também que o conhecimento conduz ao Banquete dos Deuses, ao Olimpo do poder público. Quer dizer, sem letras só há exclusão; pois, sem a presença na Ágora (isonomia política), é negado o direito à opinião qualificada (isegoria).

Mas, o que temos é a difusão do senso comum criador do homo Faber que não será homo sapiens e, portanto, longe da vida pública não será zoonpolitikón. Sem o domínio dos códigos formais da escrita, sem o entendimento do sujeito na frase, (in)justamente os mais desassistidos vão  violando a língua escrita com emotions. Mantendo-se no aprisionamento da gíria do coloquialismo são incapazes da compreensão do Livro Razão: a contabilidade do sistema produtivo. Sem o acesso à linguagem formal (bastando-se na linguagem dos sinais e que já foram hieróglifos), reduzem-se a um tipo de “consciência de WhatsApp”. São incapazes de compreender as artimanhas do Poder Político, a formalidade da economia, as regras do direito que lhe manda cegamente obedecer. Portanto, distante do pensamento formal do mundo da rua, são reféns do mundo da casa. Isso é elitismo? Não. Por que os filhos da classe trabalhadora devem ser alijados da ciência?

As elites culturais, falantes de duas ou três línguas, não querem seus filhos em meio à universalidade do saber-poder? Por que as teses de multiculturalismo não incluem a luta de classes na longa série de lutas miúdas de direitos de grupos minoritários? Se defendemos minorias, por que não as juntamos em uma maioria? Não é justo pactuar com a ideia falsa de que a escola não precisa ensinar. Aliás, é ridículo discutir o óbvio. É ululante que a escola deve cumprir sua função social: alfabetizar, ensinar a decodificar os códigos formais. É preciso saber que a história começou com a escrita.  Assim, ainda é preciso saber que o caminho da participação social, em tempos (pós)modernos, tem início em reconhecer a função do algoritmo nas redes sociais. É o primeiro passo para entender que a Inteligência Artificial não é magia e nem diabrura. A não ser as diabolices da atual Sociedade de Controle.

Como se dá essa transformação? No domínio da língua materna, no reconhecimento da importância da regra de três, e que equivalem em importância, enquanto ato de ler, ao conhecimento da Constituição: até às fímbrias técnicas do significado de um acórdão do Supremo Tribunal Federal (STF). Porque, sem dominar os acordes do poder não há linguagem de sinais e gírias que nos salve. Inclusive, o ensino com a qualidade da ciência moderna levaria ao conhecimento ontológico de que não há sociedade humana sem dominação e sem direito. Basta ler Antropologia e Filosofia Política. É preciso saber que a própria ideia de democracia cultural, multicultural, deve ser eficaz em explicar o que é o Princípio da Perfectibilidade. Afinal, não é da Política grega que tratamos; mas, da Polis do século XXI. Os herdeiros da classe trabalhadora não nasceram de um torno e nem são órfãos da língua portuguesa.

Por que os filhos e as filhas da classe trabalhadora não podem, literalmente, ler e interpretar os manuais do poder? A educação pública tem que considerar essencial a “ratio” de quem defende o direito à educação, se se quer transformar o senso comum do status quo em consciência política. E, como educadores, temos sim de interferir num quadro societal dominado pelo senso comum adornado de cultura ordinária, cotidiana. Pode-se criticar o Iluminismo, mas antes é preciso “ler” suas estruturas e epistemologias. O educador deve intervir para que o discurso de neutralidade (que não existe na prática) não seja um véu, um engodo, a esconder a realidade. O educador deve convidar os filhos da classe trabalhadora a exercitarem a veritá efetualle, de que tratou Maquiavel. Porém, para isso, é preciso saber a importância do ato de ler. É preciso saber o quanto é preciso o ato de ler, assim como o ato de navegar, escrevendo palavras inteiras e não meias palavras. Por fim, dominando o “ato de ler” (tanto o formal, quanto o senso comum), o filho da classe trabalhadora será o primeiro a espantar a hipocrisia que teima em aprisioná-lo ao analfabetismo, à ignorância.

Vinício Carrilho Martinez (Pós-Doutor em Ciência Política)

Professor Associado da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar/Ded

Maria Cristina dos Santos Bezerra (Pós-Doutora em Educação)

Professora Associada da Universidade Federal de São Carlos – UFSCar/Ded

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